Porque eu sempre fui muito parecida com ela, todos falam:
- Mas essa menina é a cópia! Olha só, veja uma, olhe a outra!
Temos o mesmo sorriso, o mesmo signo. Dividimos temperamentos parecidos {momentaneamente}, quando eu precisava de calma, ela me enchia de ansiedade e vice-versa. Nós também temos os mesmos sinais de nascença, as famosas pintinhas; uma delas, inclusive, do mesmo lado da mão, no mesmo lugar. Falando em mãos, são idênticas. As unhas curtas e as linhas arredondadas, contornando os dedos. Nossos cílios são longos e os olhos “mudam de cor conforme o humor”, a gente brincava; as histórias de vida se misturam em alegrias e tristezas, realizações e frustrações, medos e o *olhar pra frente*.
Quando eu tinha crises de enxaqueca, ela brigava comigo, dizendo:
- Aposto que foi o chocolate!
E mesmo dando uma bronca decente, cortava legumes e verduras para fazer a famosa sopa e ia até meu quarto, de cinco em cinco minutos, para saber se eu já tinha melhorado, se eu queria que ela dormisse lá, para me dar um beijo na testa.
Ela já enfrentou filas longas por minha causa: em hospitais, quando eu estive doente; no curso, quando eu precisei concluir o inglês; na escola, para as fatídicas reuniões de pais, em shows, para comprar nossos ingressos.
Ela me mostrou que não precisava ter vergonha de demonstrar sentimento algum, gargalhava alto, chorava a tristeza, dançava conforme a música, ela invadia o ambiente.
Ela me ensinou a gostar de música brasileira, ouvia Elis Regina e Clara Nunes. Comigo ela aprendeu a gostar de Janis Joplin, de Zeca Baleiro e de U2; quando eu chegava do trabalho, ela dizia, numa intimidade única e expressiva:
- Adivinha quem eu vi hoje? O Bono.
- ‘Como se ele tivesse passado em nossa calçada’, eu dizia. E ela contava o que havia assistido na matéria da TV, com detalhes; daí eu pegava um DVD qualquer e íamos assistir a Janis gargalhar, balançando a juba colorida e o colete dourado ou então cantarolar *eu vi mamãe Oxum na cachoeira, sentada na beira do riooooooo...*.
Porque a gente gostava de sair e um programa ideal para nossa dupla perfeita era almoçar. Caminhávamos pelo shopping, olhando vitrines surreais e acabávamos numa mesa da praça de alimentação, ela na comida árabe e eu na chinesa.
Um dos presentes que ela mais gostava de ganhar era perfume e tudo mais que exalasse cheirinhos suaves, e eu me aproveitava desse conhecimento e a enchia de rosas e gérberas sempre que podia...
... Assim como fiz no último dia das mães que passamos juntas. Fomos pegá-la no aeroporto, ela voltava de uma viagem que nem deveria ter acontecido porque, pior do que sofrer injustiças de quem chamamos de *estranhos*, é sentir-se privada de tentar viver mais por quem ela chamava de *família*. A viagem foi desnecessária porque ela não precisava passar pelo o que passou. Logo ela. Até então admirava quem disse que “ela poderia morrer a qualquer momento... que deveria voltar pra casa”, mas cada um dá o que tem, a verdade ficou explícita e não há o que consertar.
O bom é que ela voltou para sua casa no momento exato e nós, sua verdadeira família, ficamos felizes por isso. Fizemos tudo dentro de nossas possibilidades para que se sentisse segura e confortável, mas ela decidiu partir...
No dia 26 minha mãe foi embora... mas desde muito antes meu coração já alertava que era preciso deixá-la livre, deixá-la seguir ou ficar. E nessa convivência diária, evitávamos chorar para não entristecê-la com nossas fraquezas; e a dor que reinava em nossos corações, tornou-se fortaleza...
Até o último momento em que pude segurar sua mão, agradeci por tudo que ela fez, pedi perdão por meus erros e disse que se ela decidira caminhar por outros mundos, que fosse em paz, que eu jamais esqueceria tudo o que fez por nós.
Obrigada, *Dona Natércia*, você vai comigo aonde eu for porque eu tenho seu sorriso, suas mãos e sua força.
Obrigada, mãe. Eu amo você também. E muito.
- Mas essa menina é a cópia! Olha só, veja uma, olhe a outra!
Temos o mesmo sorriso, o mesmo signo. Dividimos temperamentos parecidos {momentaneamente}, quando eu precisava de calma, ela me enchia de ansiedade e vice-versa. Nós também temos os mesmos sinais de nascença, as famosas pintinhas; uma delas, inclusive, do mesmo lado da mão, no mesmo lugar. Falando em mãos, são idênticas. As unhas curtas e as linhas arredondadas, contornando os dedos. Nossos cílios são longos e os olhos “mudam de cor conforme o humor”, a gente brincava; as histórias de vida se misturam em alegrias e tristezas, realizações e frustrações, medos e o *olhar pra frente*.
Quando eu tinha crises de enxaqueca, ela brigava comigo, dizendo:
- Aposto que foi o chocolate!
E mesmo dando uma bronca decente, cortava legumes e verduras para fazer a famosa sopa e ia até meu quarto, de cinco em cinco minutos, para saber se eu já tinha melhorado, se eu queria que ela dormisse lá, para me dar um beijo na testa.
Ela já enfrentou filas longas por minha causa: em hospitais, quando eu estive doente; no curso, quando eu precisei concluir o inglês; na escola, para as fatídicas reuniões de pais, em shows, para comprar nossos ingressos.
Ela me mostrou que não precisava ter vergonha de demonstrar sentimento algum, gargalhava alto, chorava a tristeza, dançava conforme a música, ela invadia o ambiente.
Ela me ensinou a gostar de música brasileira, ouvia Elis Regina e Clara Nunes. Comigo ela aprendeu a gostar de Janis Joplin, de Zeca Baleiro e de U2; quando eu chegava do trabalho, ela dizia, numa intimidade única e expressiva:
- Adivinha quem eu vi hoje? O Bono.
- ‘Como se ele tivesse passado em nossa calçada’, eu dizia. E ela contava o que havia assistido na matéria da TV, com detalhes; daí eu pegava um DVD qualquer e íamos assistir a Janis gargalhar, balançando a juba colorida e o colete dourado ou então cantarolar *eu vi mamãe Oxum na cachoeira, sentada na beira do riooooooo...*.
Porque a gente gostava de sair e um programa ideal para nossa dupla perfeita era almoçar. Caminhávamos pelo shopping, olhando vitrines surreais e acabávamos numa mesa da praça de alimentação, ela na comida árabe e eu na chinesa.
Um dos presentes que ela mais gostava de ganhar era perfume e tudo mais que exalasse cheirinhos suaves, e eu me aproveitava desse conhecimento e a enchia de rosas e gérberas sempre que podia...
... Assim como fiz no último dia das mães que passamos juntas. Fomos pegá-la no aeroporto, ela voltava de uma viagem que nem deveria ter acontecido porque, pior do que sofrer injustiças de quem chamamos de *estranhos*, é sentir-se privada de tentar viver mais por quem ela chamava de *família*. A viagem foi desnecessária porque ela não precisava passar pelo o que passou. Logo ela. Até então admirava quem disse que “ela poderia morrer a qualquer momento... que deveria voltar pra casa”, mas cada um dá o que tem, a verdade ficou explícita e não há o que consertar.O bom é que ela voltou para sua casa no momento exato e nós, sua verdadeira família, ficamos felizes por isso. Fizemos tudo dentro de nossas possibilidades para que se sentisse segura e confortável, mas ela decidiu partir...
No dia 26 minha mãe foi embora... mas desde muito antes meu coração já alertava que era preciso deixá-la livre, deixá-la seguir ou ficar. E nessa convivência diária, evitávamos chorar para não entristecê-la com nossas fraquezas; e a dor que reinava em nossos corações, tornou-se fortaleza...
Até o último momento em que pude segurar sua mão, agradeci por tudo que ela fez, pedi perdão por meus erros e disse que se ela decidira caminhar por outros mundos, que fosse em paz, que eu jamais esqueceria tudo o que fez por nós.
Obrigada, *Dona Natércia*, você vai comigo aonde eu for porque eu tenho seu sorriso, suas mãos e sua força.
Obrigada, mãe. Eu amo você também. E muito.







